Agências discutem como contratar iniciantes na era da IA

Um dono de agência diz ter parado de contratar recém-formados. Para o mercado, a decisão levanta a pergunta sobre quem formará os próximos líderes.

O que aconteceu

Um dono de agência de marketing de performance disse que deixou de contratar recém-formados e não espera retomar essas vagas. A declaração foi feita em um debate fechado durante um evento da Digiday realizado em 24 de setembro, nos Estados Unidos, e publicada pelo veículo nesta segunda-feira (28). Os participantes não foram identificados pelas regras do encontro.

Segundo o executivo, parte das tarefas antes entregues a profissionais iniciantes agora é feita com inteligência artificial. Ele reconheceu, porém, que pessoas contratadas no começo da carreira se tornaram algumas das melhores da sua agência. Outro participante alertou para a consequência de longo prazo: se as empresas deixarem de formar iniciantes, terão menos profissionais experientes quando os atuais líderes saírem.

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As falas registram decisões e preocupações de participantes do evento. A reportagem não apresenta um levantamento sobre contratações em todas as agências e não permite afirmar que o setor inteiro tenha parado de abrir vagas.

Por que importa

Para uma agência brasileira, o ganho de tempo com IA não elimina a necessidade de alguém capaz de conferir um plano de mídia, questionar um resultado e conversar com o cliente. Essas competências costumam ser aprendidas trabalhando com profissionais mais experientes. Quando as tarefas de entrada somem, a empresa também perde uma parte do caminho usado para formar quem assumirá contas e equipes depois.

O ponto para quem decide contratação é verificar quais atividades realmente podem ser automatizadas e quais servem de treinamento. Uma equipe pode usar IA para preparar uma primeira versão de relatório e dar ao iniciante a responsabilidade de checar números, explicar desvios e propor correções. A supervisão continua necessária, sobretudo antes de apresentar conclusões ao cliente.

Há um custo nessa escolha. Um profissional em formação exige orientação e tempo de revisão, mesmo quando uma ferramenta executa parte do trabalho. Em compensação, deixar de contratar hoje pode obrigar a agência a disputar no mercado alguém já experiente mais adiante. A Digiday relata que participantes do encontro defenderam reformular as funções de entrada, criar mentoria e oferecer treinamento em IA. Nenhuma dessas sugestões veio acompanhada de dados sobre redução de custo ou aumento de produtividade.

A discussão acontece em um ambiente de preocupação com empregos. Em pesquisa internacional divulgada neste mês, o Pew Research Center encontrou mais pessoas esperando perda do que criação de postos por causa da IA em 34 dos 37 países analisados. Trata-se de percepção dos entrevistados, não de uma medição de vagas perdidas em agências brasileiras.

O que observar

O próximo sinal concreto virá das próprias agências: quantas vagas de entrada elas mantêm, que tarefas atribuem aos novos contratados e quanto tempo reservam para supervisão. Uma política de treinamento anunciada no palco só terá peso quando aparecer no trabalho diário. Para quem está planejando a equipe de 2027, a decisão imediata é definir como um iniciante vai aprender a avaliar uma entrega feita com IA antes de responder sozinho por ela.

Fontes

  • Digiday: debate com profissionais do setor.
  • Pew Research Center: pesquisa internacional sobre percepção do efeito da IA no emprego.