FCC libera fundos do Golfo em 49,5% da Paramount

Regulador americano abre exceção à regra de capital estrangeiro e coloca Arábia Saudita, Catar e Abu Dhabi como sócios da dona da CBS, às vésperas da compra da Warner.

O que aconteceu

A FCC, agência que regula comunicações nos Estados Unidos, decidiu abrir exceção à regra que limita em 25% a participação estrangeira em empresas com licenças de radiodifusão. A dispensa vale para o caso Paramount-Warner Bros. e permite que três fundos soberanos, controlados pelos governos da Arábia Saudita, do Catar e de Abu Dhabi, fiquem com 49,5% da companhia. A informação foi publicada pelo The Verge e pelo Ars Technica.

Segundo o Ars Technica, a agência rejeitou as objeções levantadas sobre governos autoritários comprando influência dentro da dona da CBS. O The Verge foi mais ácido: aponta que, na gestão de Brendan Carr, a FCC ameaçou emissoras americanas repetidas vezes por causa de conteúdo editorial, incluindo a ABC, enquanto trata com naturalidade a entrada de capital estatal estrangeiro no mesmo grupo.

PublicidadePraxo: o cliente chamou no WhatsApp e ficou esperando? Faça o Raio-X grátis

Em paralelo, a Paramount negocia com autoridades da Califórnia para destravar a aquisição da Warner Bros., avaliada em US$ 81 bilhões. A Exame informa que a empresa discute concessões com o governo estadual, enquanto estados americanos questionam os efeitos da fusão sobre o mercado de entretenimento.

Por que importa

Quem compra mídia ou licencia conteúdo no Brasil trabalha, na prática, com um punhado de donos de catálogo. Se a fusão sair, esse punhado encolhe mais um pouco, e o novo grupo passa a ter entre seus maiores acionistas três Estados do Golfo. Não é uma questão de nacionalidade do dinheiro. É de a quem o conselho responde quando uma produção, um documentário ou uma pauta jornalística incomodar um acionista relevante.

Opinião: para o mercado brasileiro, o risco mais concreto não está na tela agora, está no contrato. Decisões sobre janelas de exibição, preço de licenciamento para canais e plataformas locais, e o que entra ou não no catálogo daqui costumam ser tomadas na matriz. Uma estrutura acionária com 49,5% em fundos estatais muda o cálculo político por trás dessas escolhas, mesmo que ninguém assuma isso em público.

Há também o lado comercial. Consolidação dessa escala tende a fortalecer o lado vendedor na negociação de pacotes publicitários e de distribuição. Anunciante e agência no Brasil sentem isso na renovação, não no anúncio da fusão.

O que observar

  • O desenho final da participação: as fontes não detalham se os fundos terão direito a voto, assento em conselho ou apenas capital. Essa distinção define quase tudo no debate sobre influência editorial.
  • O acordo com a Califórnia relatado pela Exame e a reação dos outros estados americanos que já questionam a fusão.
  • Eventuais condições anexadas pela FCC à dispensa, e se elas incluem alguma salvaguarda editorial.
  • Como os catálogos de Paramount e Warner são reorganizados no Brasil caso o negócio se conclua, incluindo o que acontece com acordos de licenciamento já assinados com veículos locais.

Fontes

  • The Verge: Brendan Carr’s FCC is more worried about who The View interviews than foreign governments owning Paramount
  • Ars Technica: FCC lets Paramount sell 49.5% equity stake to Saudi Arabia, UAE, and Qatar
  • Exame: Paramount negocia acordo com a Califórnia para avançar na compra da Warner por US$ 81 bi