Califórnia e Virgínia assumem a regulação de IA nos EUA

Com o Congresso americano parado, dois governadores editam decretos sobre botão de desligamento e data centers, e criam o vocabulário que vai chegar ao debate brasileiro.

O que aconteceu

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, assinou na sexta-feira (18) uma ordem executiva que coloca o estado à frente da fiscalização de IA nos Estados Unidos. O decreto manda o governo estadual reunir um grupo de especialistas para apresentar recomendações em até dois meses sobre a viabilidade de exigir um “botão de desligamento”, o kill switch, nos modelos de fronteira, conforme apurou o The Verge. A Folha confirmou a assinatura no mesmo dia.

Segundo a Axios, o texto também trata de auditores independentes, outro tema em discussão em Washington nesta semana, e foi escrito em tom de cobrança direta ao governo federal. A publicação lembra que Newsom é presumível candidato à presidência em 2028 e que outros democratas de projeção nacional, como o governador de Illinois, JB Pritzker, passaram a falar mais alto sobre segurança de IA enquanto o Congresso americano não avança.

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Na Virgínia, a governadora Abigail Spanberger seguiu por outro caminho. Sua Ordem Executiva 22 cria uma força-tarefa de IA, proíbe que integrantes do executivo estadual assinem acordos de confidencialidade e determina medidas que podem dar às comunidades locais mais poder de decisão sobre a instalação de data centers, além de desacelerar aprovações. O estado é descrito pelo The Verge como a capital mundial dos data centers.

Por que importa

Duas frentes distintas aparecem aqui: o controle sobre o comportamento dos modelos e o controle sobre a infraestrutura física que os sustenta. Quem vende IA no Brasil compra produto feito na Califórnia. Se o estado passar a exigir mecanismo de desligamento ou auditoria externa de modelos de fronteira, a exigência vira característica do produto global, e chega ao contrato da agência brasileira sem que ninguém aqui tenha votado nada.

A parte da Virgínia interessa a outro público. Licenciamento local, transparência de negociação e prazo de aprovação de data center são exatamente os pontos que já pressionam prefeituras e governos estaduais brasileiros que disputam investimento em infraestrutura de nuvem. O decreto de Spanberger cria um precedente de como um governo pode frear esse tipo de obra sem proibi-la.

Opinião: a parte mais útil para o debate brasileiro não é o kill switch, que ainda é uma hipótese em estudo. É a proibição de NDAs para servidores públicos. Isso é replicável, barato e mexe com a assimetria de informação entre big tech e poder público.

O que observar

O prazo de dois meses do grupo de especialistas californiano, e se a recomendação vier como obrigação ou como diretriz voluntária. Na Virgínia, o que a força-tarefa entrega e se municípios de fato ganham poder de veto. Vale acompanhar também se outros governadores com ambição nacional entram na fila com decretos próprios, o que transformaria segurança de IA em pauta de campanha nos Estados Unidos em 2028.

Fontes

  • The Verge: Gavin Newsom is pushing for an AI kill switch
  • The Verge: Virginia governor creates an AI task force and moves to restrain data centers
  • Folha de S.Paulo: Governador da Califórnia assina decreto para explorar ‘botão de desligamento’ da IA
  • Axios: 2028 Democrats like Newsom and Pritzker lean in on AI safety as Washington stalls